Vida Executiva
Edição 43 - Dezembro/2007
 
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Questão de sobrevivência
Da ficção à realidade, a ética é um tema obrigatório nas relações humanas. Assim, cada vez mais, a honestidade, a justiça e a moralidade pautam as ações das pessoas e organizações

POR ROSANI ANDREANI

FOTOS TÂNIA LUMENA

"QUANDO OS QUE MANDAM PERDEM A VERGONHA, os que obedecem perdem o respeito". A célebre frase do cardeal de Retz foi longamente aplaudida no espetáculo teatral Às favas com os escrúpulos, em cartaz na cidade de São Paulo. A comédia mostra a atuação nada ética de um político poderoso - tido como honesto até o dia em que se descobre que sua conduta é tão pouco idônea quanto tudo o que ele conquistou na vida.

Se nos palcos o assunto diverte; na vida, faz pensar. Afinal, nunca a ficção abordou tanto a ética como nos últimos tempos. O tema aparece em livros, filmes e peças teatrais (veja boxe) e está em destaque na mídia por conta de escândalos e atitudes que andam na contramão de uma conduta aceitável nas empresas e fora delas.

De acordo com Maria do Carmo Whitaker, consultora de ética nas organizações e coordenadora do site www. eticaempresarial.com.br, reverter esse quadro é um trabalho de formiguinha - e cujo resultado é alcançado somente a longo prazo. "É preciso não abrir mão de princípios e ter a determinação de ir contra a corrente dos escândalos e fraudes. Não se acostumar ou se conformar com eles nem mesmo se deixar contaminar", afirma a consultora.

E isso se aplica a todas as esferas, já que o assunto tem ganho força também dentro das organizações. Se a ética nos negócios é fundamental, nas relações de trabalho ela certamente contribuirá para o sucesso e o comprometimento da equipe. Por isso, é tão importante definir a conduta adequada de cada um dos lados para que o ambiente se torne mais harmonioso, os funcionários se comprometam mais e compartilhem valores. Somente assim, os processos se tornam mais eficientes e transparentes.

Pessoas e empresas estão cada vez mais conscientes de que tanto sua reputação quanto a das organizações depende cada vez mais da conduta de seus executivos, conselheiros, colaboradores e até fornecedores. Isso acontece porque a sociedade já se deu conta de que a busca pelo lucro e pelos bons resultados deve andar de mãos dadas com a justiça, a ética e a cooperação. "Não conheço estatísticas que sustentem a relação entre o comportamento ético e o sucesso de uma corporação, mas vejo que as empresas corruptas e fraudadoras, tanto no Brasil como no exterior, fracassam", completa Maria do Carmo.

TODOS GANHAM
No âmbito das organizações, empresa ética é aquela cujos fundadores pautam suas condutas por princípios bem defi- nidos, escolhem para geri-la pessoas de postura irrepreensível, imprimem em sua cultura valores morais e suas relações são calcadas no respeito entre as partes. Tudo isso precisa ser verdadeiro para gerar credibilidade e transmitir a imagem de consistência, seriedade e idoneidade.

Há quem fale em conflito entre os valores pessoais e os da companhia. Mas na verdade, não se trata de incompatibilidade, pois os princípios e valores que fundamentam a ética são imutáveis e perenes. "O que acontece na prática é que elas desejam ser íntegras, mas se sentem pressionadas a praticarem, por exemplo, subornos, fraudarem balancetes etc. Noto que essas condutas sugeridas não são valores, ao contrário, são contra-valores que, evidentemente, se chocam com os princípios de uma pessoa íntegra", diz a consultora.

Tudo isso, é claro, tem um preço. E alto. São muito pesados os ônus impostos às empresas que, despreocupadas com a ética, enfrentam situações em que, num dia apenas, destroem uma imagem que levou anos para ser conquistada. Multas elevadas, quebra da rotina normal, empregados desmotivados, fraude interna e perda de confiança são o resultado.

Como conseqüência, muitas empresas têm adotado rígidos padrões pessoais de conduta para selecionar seus empregados, cientes de que, atualmente, a integridade nos negócios exige profissionais altamente capazes e cujos princípios pessoais sejam irretocáveis. "A ética é uma questão pessoal e está muito ligada à intenção de cada um", conclui a consultora Maria do Carmo Whitaker.

VIDA E ARTE
Se nos palcos, o comportamento amoral é questionado, vale trazer essa reflexão também para a vida pessoal. Afinal, é preciso entender seu peso na convivência diária, pois as pessoas assumem diferentes papéis no contexto em que vivem - na sociedade, na política, na família, como profissional, como estudante, como colega, amigo e até como adversário em uma competição.

"A ética está causando grande impacto em todas as áreas. Aliás, a integridade pessoal leva cada um a adotar essa conduta não somente na empresa, como também, na família, no lazer, no esporte, na cultura, na busca de seus interesses individuais, no convívio com seus amigos, parentes e vizinhos", afirma. É como declama a cantora Ana Carolina no poema sobre ética, "sei que não dá para mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!"

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